A humanidade sempre encontrou maneiras de registrar a própria existência. Seja pela arte rupestre, seja pela pintura, seja pela fotografia, seja pelo cinema, seja até mesmo pela escrita técnica do jornalismo. É na redação jornalística que nascem os argumentos, os questionamentos e a opinião de quem lê, fortalecendo o que é mais intrínseco de uma democracia: a cidadania.
É nesses espaços que o papel de trabalhadora e intelectual se confundem, se fundem. As linhas redigidas portam a voz de cada denúncia que a população espera, a autoria das reportagens torna-se alvo em caso de decepções e o “furo jornalístico” passa a ser cada vez mais cobiçado. Tudo é intenso: tanto quem produz e sua rotina quanto o produto exposto ao mundo.
Mas, quem dá voz ao cansaço que o cotidiano gera nessa categoria? O adoecimento mental de jornalistas, sobretudo com o recorte do gênero, é uma discussão que vence os inúmeros filtros editoriais de cada veículo? Poderíamos dizer que a saúde mental das profissionais da imprensa é uma pauta silenciada?
Foram essas as perguntas que me trouxeram até este material. O resultado parte de uma pesquisa profunda nos principais dados disponíveis acerca do mercado de trabalho em jornalismo brasileiro nos últimos anos e encerra em uma troca sincera e sensível com três jornalistas afetadas pelas estruturas que ainda “regem” a profissão.
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Antes de iniciar a leitura…
Ao longo desta reportagem, optei por sempre me referir às pessoas jornalistas no pronome feminino, uma vez que o principal objetivo com o material a seguir é visibilizar as mulheres desta categoria.
Qual o rosto do jornalismo no Brasil?
Em 2021, o Laboratório de Sociologia do Trabalho da Universidade Federal de Santa Catarina (Lastro/UFSC) construiu coletivamente uma pesquisa voltada a traçar o perfil da jornalista brasileira. Em parceria com a Rede de Estudo sobre Trabalho e Profissão da Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (RETIJ/SBPJor) e outras organizações nacionais da categoria, o estudo obteve mais de 7.029 respostas, um alcance surpreendente e que rendeu perspectivas acerca da área, embora ainda de caráter mais generalista.
Segundo o relatório, a região que apresenta o maior número de profissionais registrados é a Sudeste, com 61,5%. Além de estar concentrada nos três estados mais populosos do país – São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais –, a área é majoritariamente formada por mulheres e 67,8% se autodeclaram como brancas.


Outros cinco relatórios também fizeram parte da pesquisa do Perfil do Jornalista Brasileiro, sendo um para cada região do Brasil: Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Esta segunda etapa foi publicada dois anos depois, em 2023, mesclando as respostas do questionário aplicado nacionalmente com os dados de outros formulários restritos às localidades.
Dentro do recorte do Centro-Oeste, o Distrito Federal concentra 54,8% das jornalistas atuantes na região, seguido por Goiás, onde vivem 17,9% das respondentes. Assim como no cenário nacional, a maior parte é mulher (60,2%) e 63,7% se autodeclaram brancas – 32,3% se afirmam como pretas ou pardas.
No que diz respeito à área de atuação, 53,4% trabalham na mídia, ou seja, imprensa, veículos de comunicação, jornalismo independente e/ou startups jornalísticas. Destas, a maior parte (32,7%) atua em empresas privadas, na função de repórter (51%) e com equipes muito reduzidas.
A saúde mental das jornalistas em números
Quando questionadas sobre as condições de trabalho, 61% das jornalistas atuantes no Centro-Oeste afirmaram trabalhar entre 7 e 10 horas por dia, o que confronta diretamente o limite de 5 horas diárias estabelecido no Decreto-Lei nº 972, de 17 de outubro de 1969, que regulamenta o exercício da profissão de jornalista no Brasil e atualizado pelo Decreto nº 83.284, de 13 de março de 1979.
Isso é um dos fatores que levam às altas taxas de estresse dentro da área. Ainda de acordo com o relatório publicado pela UFSC, 64,8% já se sentiram estressadas, embora haja uma perceptível subnotificação quanto aos casos realmente diagnosticados – apenas 37,7% receberam laudo clínico. Também são elevados os índices de assédio moral nos ambientes de trabalho jornalístico: 44,8% relataram ter passado por esse tipo de violência psicológica.
Quando o adoecimento requer afastamento
O processo de adoecimento devido às condições laborais não é algo restrito ao jornalismo e é objeto de estudo de iniciativas nacionais que buscam denunciar e refletir acerca da segurança e da saúde no trabalho.
A iniciativa SmartLab de Trabalho Decente, articulada com pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública da Universidade Federal de São Paulo (FSP/USP), desenvolveu o Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho. Nele, bases de dados e anuários governamentais são agrupados e resultam em estatísticas nacionais, estaduais e municipais.
Entre as categorias levantadas estão os afastamentos devido a questões ligadas à saúde mental. Na série histórica, que abrange de 2012 a 2024, são considerados diferentes setores econômicos, inclusive atividades associadas à imprensa. A amostra representa tanto os beneficiários cujo adoecimento mental é diretamente causado pelas atividades desenvolvidas no trabalho quanto aqueles que ficam impedidos de trabalhar por razões externas.
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Conheça Mariah: um divórcio forçado pelo conflito entre a pressa de ser e os limites do corpo
A entrevistada optou por não se identificar, portanto o nome abaixo é fictício. O áudio desta entrevista foi reproduzido pelo Google AI Studio, a fim de assegurar a qualidade do som e o anonimato da fonte.

Tocava Gadú e o café escolhido para a entrevista parecia ter sido feito especialmente para este momento. A mesa estava em um canto reservado, debaixo das escadas que levava para o primeiro andar, mas o tom de voz escolhido por Mariah evidenciou desde o início a liberdade que ganhou depois de romper com o fluxo do roteiro profissional que a levara a ter um burnout em 2022.
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Antes dessa virada de pensamento, navego pelas raízes da relação de Mariah com a comunicação e a conexão consigo mesma – mulher, negra e jovem. Não antes, é claro, de pedir um café gelado com calda de chocolate para que, ao menos, o paladar das duas fosse embalado por um dulçor e delicadeza necessários para nos debruçarmos sobre lembranças não tão reconfortantes assim.
Mariah soube que queria ser jornalista aos 12 anos, quando assistiu a uma entrada ao vivo de uma correspondente internacional. Ainda nessa idade criou um blog, onde publicava a respeito de tudo que julgava interessante – literatura e viagens não podiam faltar – e trocava ideias com pessoas de diferentes locais que, já ali, se conectaram com a escrita humana dela. Depois, vieram os anos de faculdade e o encanto pela liberdade que Mariah acreditava poder encontrar no jornalismo mudou um pouco a rota.
A televisão e a vida como correspondente internacional ficaram no imaginário. Logo, o senso de urgência de conquistar sua independência ainda morando com os pais tomou conta de cada sinapse que Mariah produzia. Foi assim, com esse ritmo de tirar o fôlego até dela mesma enquanto narra sua trajetória para mim, que ela deu início a uma série de trabalhos que resultaram no ápice do estresse que alguém pode chegar: aos 21 anos, Mariah teve sua vida paralisada por meses pelo que, hoje, chama de “burnoutinho”, dando um toque de humor autodepreciativo para nossa conversa.​​
— Eu cheguei a trabalhar para cinco empresas diferentes ao mesmo tempo, tava fazendo TCC, tava organizando meu intercâmbio e organizando para sair de casa.
O restante dessa linha de pensamento? Um grande blackout, como Mariah mesma diz. Foram dias sem dormir, sem se alimentar direito e até a relação com os pais ficou estremecida. No entanto, não chegamos em extremos sem receber sinais, e Mariah recebia vários, havia anos.
Os sintomas físicos de Mariah alertavam que o emocional tinha sido atropelado pela ânsia de “ser alguém na vida” que jovens na casa dos 20 anos sentem. Antes do apagão, veio a dermatite atópica. O corpo alertando, com manchas vermelhas, que colapsaria. Depois, um atestado médico de 20 dias por estafa mental. Mariah só enxergou que estava em um relacionamento abusivo com o trabalho quando uma simples conferida no celular se tornou motivo de choro ou, pior, quando perdeu o diálogo que tanto valorizava com os pais ao fugir de casa por alguns dias.
Na retomada da própria juventude e na quebra com o que lhe foi ensinado sobre a rotina de uma jornalista de sucesso, Mariah teve como maior aliada a terapia. Foi com a ajuda da psicanálise que Mariah se permitiu ter uma pausa e reavaliar a lista de sonhos escrita aos 12 anos. “Eu gastei a minha juventude inteira trabalhando para pessoas que não me respeitavam. O que eu posso fazer daqui para frente para que isso não aconteça de novo?” Nesta hora, ela fala mais consigo mesma do que comigo. Percebo que, hoje, a relação de Mariah com sua criança interior é de paz. Os olhos castanhos-escuros revelam maturidade e leveza – de alguém que se curou, mas não esqueceu a origem de cada cicatriz.
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Agora, com 24 anos, Mariah tem dois empregos remotos e horários estabelecidos para tudo. O timer é outro aliado nessa jornada de cura: atendimento apenas em horário comercial, almoço e academia têm hora marcada e, em caso de emergências depois do expediente, só no dia seguinte para resolver. “No final das contas, não é sobre sonhar com o trabalho dos sonhos, não é sobre sonhar com trabalho, é sobre sonhar com coisas que você pode realizar a partir dele. Então hoje eu não tenho o trabalho dos sonhos, eu tenho sonhos que o meu trabalho realiza”, destaca com um tom de voz firme.
Como ela mesma enfatiza ao longo de toda a narrativa para mim, sempre gesticulando para trazer essa força ao que fala, Mariah precisou de uma experiência radical para “se politizar” quanto ao sistema em que a comunicação está inserida e ao que sua existência representa na sociedade. Mulher e negra, para além do excesso de demandas, foi desde muito nova exposta a situações de assédio e racismo. A dor ainda é latente, por mais que espelhe força e resistência ao contar suas vivências.
Tinha apenas 18 anos quando sofreu um assédio logo no seu primeiro estágio. Mariah era a única pessoa no suposto departamento de comunicação para o qual a chamaram. Embora no início da faculdade, assumiu todas as responsabilidades delegadas a ela. Planejava o calendário editorial, fazia a redação dos posts, ajudava com o site e gravava vídeos para uma empresa revendedora de carros que havia lhe contratado.
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Em uma das situações, foi obrigada a ouvir um dos colegas a chamando de “gostosa” enquanto fotografava um dos veículos na garagem. Apesar de ter denunciado para a chefia da época, a empresa, que era familiar, não advertiu formalmente os funcionários envolvidos e Mariah se demitiu para se ver “livre” do constrangimento que lhe causaram.
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— Você ser mulher, ser uma mulher preta, que as violências são muito mais complexas, porque elas passam pelo campo da etnia e da raça, de gênero, de classe social, às vezes, é mais difícil.
Por isso, ao me contar que atualmente toda a equipe da empresa onde trabalha é formada por mulheres, Mariah se emociona, com os olhos brilhando ao demonstrar o alívio que sente por finalmente ter suas ideias reconhecidas e creditadas pelas colegas, e por saber que até mesmo um dia de muita cólica menstrual será compreendido pelo restante da equipe. Para além da rede de apoio que sempre encontrou nos pais e amigos, Mariah valoriza a oportunidade de estar em empresas que acolhem e respeitam os limites dela. Apesar disso, segue sem romantizar sua relação com o trabalho, tem consciência de que recebe o “mínimo” que qualquer trabalhadora deveria receber.
— O jornalismo ajuda muita gente, mas a empresa não é obra social.
E é assim, consciente de seus limites e com uma nova visão sobre o tão falado “sucesso profissional”, que Mariah vive seus vinte e tantos anos. Orgulhosa do que aprendeu até aqui. Orgulhosa do que conquistou: a casa própria, o gatinho preto companheiro fiel, as viagens ao longo do ano, um intercâmbio e a permanência daquele olhar humano da Mariah criança, que sonhava em cobrir notícias do mundo no telhado de Roma ou na Turquia ou em Londres.​
— O quanto o jornalismo ainda me tem? Muito, muito ainda. Eu ainda falo como jornalista, escrevo como jornalista, me relaciono como jornalista. A gente vive um casamento muito mais saudável do que quando começou – finaliza em tom bem humorado, me tirando uma risada e marejando meus olhos como quem entende exatamente o que Mariah inspira.
Gênero e trabalho:
a caça às bruxas continua?

Silvia Federici, filósofa italiana e feminista, estabelece a figura da mulher como central na discussão acerca da divisão sexual do trabalho. Em seu livro, Calibã e a bruxa, a autora defende que gênero e raça passaram a ser elementos históricos de opressão na transição do feudalismo para o capitalismo. Isso porque as mulheres, que anteriormente eram valorizadas pelos saberes que detinham, tiveram seu papel social reduzido à noção de reproduzir, e as que resistiram a esse papel submisso ficaram conhecidas como bruxas, sendo intensamente violentadas por quem ocupava espaços de poder.

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Hoje, ainda é motivo de incômodo quando uma mulher ocupa uma posição de destaque e recebe valorização pelo conhecimento que demonstra dentro de ambientes corporativos. Uma pesquisa de 2017 sobre mulheres no jornalismo da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) levantou que 65,7% das profissionais da área já tiveram sua competência questionada.
Outro levantamento realizado pela empresa Resume.io em 2024 apontou para uma maior necessidade da parcela feminina de defender seus principais pontos fortes durante entrevistas de trabalho – enquanto homens corresponderam a 34%, mulheres apareceram em 44% das respostas totais. Quando o tópico analisado é o nível hierárquico, o relatório sobre igualdade de gênero de 2024, publicado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), trouxe que as posições de liderança são as menos ofertadas para mulheres, limitando-se a 0,4%.
O documento também discute a legislação pensada para combater as desigualdades entre homens e mulheres no ambiente de trabalho. Um exemplo recente é a Lei da Igualdade Salarial (14.611/2023), que estabelece a obrigatoriedade de divulgação de informações salariais por empresas com mais de 100 empregados. O objetivo é garantir mais transparência e acelerar o processo de busca por igualdade salarial, que apareceu pela primeira vez na legislação brasileira em 1943, no artigo 461 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).
“Art. 461. Sendo idêntica a função, a todo trabalho de igual valor prestado ao mesmo empregador, na mesma localidade, corresponderá igual salário, sem distinção de sexo, nacionalidade ou idade.” - Artigo 461 da CLT
Apesar disso, dados do Painel do Relatório de Transparência Salarial, que agrupa informações da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), elaborada pelo Ministério do Trabalho (MTE), apontam para um cenário significativamente desigual.
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Conheça Claudina: entre faixas de notícia, a melodia da escrita

A entrevistada optou por não se identificar, portanto o nome abaixo é fictício. O áudio da entrevista foi distorcido para também proteger a identidade da fonte.
Chego para esta entrevista já em um ambiente acolhedor. A música que toca no rádio chega como uma tática terapêutica antes da conversa que motiva este encontro. São 14 horas. Entro no estúdio. Fecho a porta. Está selada a acústica e a certeza de que teríamos um espaço seguro e de muita resiliência a partir daquele momento.
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Claudina demonstra tranquilidade e total domínio da função que ocupa hoje. Antes de iniciar as perguntas, acompanho seu movimento no trabalho. Percebo que estou diante de uma mulher que representa bem a realidade da área: enquanto comanda a mesa de som, responde mensagens no WhatsApp, edita um roteiro para podcast, quebra o gelo comigo. Muitas informações e nenhuma passa despercebida. Nem para mim, nem para ela.​​
— Aí a saúde mental. Tá aí, tá vendo? Você trabalha em cinco lugares ao mesmo tempo — damos risada.
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Apesar da rotina em modo de multitarefas, percebo logo pela escolha visual que Claudina sabe preservar e sustentar sua autoestima. Com um delineado verde-lima e uma combinação de roupa com referências vintage, ela demonstra saber quão profundamente nossa conversa a afetará. Iniciamos, assim, nosso processo de troca, entre uma faixa e outra, entre uma notícia e outra.
Claudina conta sua relação com o jornalismo como quem conta mais uma daquelas piadas repetidas de livretos de banca: de cor e salteado. Sempre sonhou com um lugar que pudesse ser mil Claudinas em apenas uma, em constante movimento. A literatura também sempre chamou sua atenção e se fez presente ao longo de todos os 15 anos de carreira. Escrever de forma humanizada foi e ainda é o combustível diário dela depois de adentrar no mercado de trabalho.
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Do estágio inspirador em Goiânia à experiência profissional em São Paulo. Claudina viu, ouviu e sentiu muitas situações ao longo de sua trajetória. Uma mulher crítica e politizada, ela elenca cada disparidade que notava nos lugares por onde passou com naturalidade e um tom carregado de certa “casca” que ser mulher em uma redação exige.
“A gente conhece, convive com muita gente e, ao mesmo tempo, quebra muitas das nossas ilusões também”, inicia ao contar das facetas distintas entre o jornalismo goiano e o jornalismo paulista. Claudina nunca sonhou com São Paulo, mas Goiânia já havia explorado todos os limites na rádio. Corajosa, como você perceberá sem que eu sequer precise lhe dizer ao longo deste perfil, ela envia seu portfólio, diz que está preparada e, desse jeito, consegue convencer a chefia de uma grande rádio nacional sediada na cidade mais populosa do Brasil.
Tecnicamente, Claudina estava preparada. Conquistou aos poucos espaço no novo trabalho. Mudou a visão que, veladamente, recebia por ter vindo de Goiás. Recebeu reconhecimento por isso. No entanto, havia de novo uma barreira já familiar: o machismo e o pacto heteronormativo que protege assediadores de responderem pelos seus atos. Ao me relatar, parte da “casca” que apresentara vai embora. O ombro tensiona mais, as mãos se entrelaçam e os dedos brincam entre si como um canal de expulsão da ansiedade que o tema – talvez inconscientemente – lhe gerava.
— Quem é de São Paulo, naturalmente, vai olhar como se qualquer pessoa de outro lugar fosse inferior. Então, se você não tomar cuidado com isso, você é engolida.
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Das demissões que me conta – sim, mais de uma motivada pelo machismo que presenciara –, chama minha atenção sua saída do primeiro emprego que teve em São Paulo. Como Claudina descreve, embora o local se apresentasse enquanto politicamente correto, toda mulher que chega na empresa já é recepcionada com uma história indigesta, mas, infelizmente, comum.
Trata-se de um caso antigo. Uma denúncia feita por mais de 15 mulheres contra um dos chefes. A acusação? Assédio moral. Mais um protegido para lista. A carta coletiva que escreveram não resultou em nenhum tipo de proteção para as vítimas. Pelo contrário, foram obrigadas a ver parceira por parceira ser demitida ou “obrigadas a se demitirem”. Verdade dura, que a vontade de estar em uma empresa com o potencial informativo como aquela segurou Claudina. Resistente, manteve até o último fôlego antes do balão emocional estourar.
Encontrou na esposa, também jornalista, sua rede de apoio. Amigos e familiares também sempre foram pilares importantes. “Você não precisa passar por esse tipo de situação” disseram para ela. Parte da sua coragem em impor limites vem disso, segundo a própria Claudina coloca. Uma outra porcentagem significativa pertence ao papel da análise na sua vida, ela me revela durante o nosso bate-papo.
Em meio ao caos das redações que seguiu e segue fazendo parte, para além do desgaste que os esforços feitos simplesmente por ser mulher no ambiente corporativo geraram, Claudina se deparou com um tipo de contratempo que gira bruscamente o eixo das nossas vidas. A mãe adoecera e, sem pensar duas vezes, fez as malas de volta à Goiânia. Permanece trabalhando, mas não foi só para Goiás que retornou. Hoje, é locutora no mesmo local que se apaixonara pelo rádio.
Claro, não está isenta do machismo. Afinal, é como se o mundo incessantemente a lembrasse do gênero que a ela atribuíram e todos os papéis que lhe cabem. Como a vez em que um atraso de dois minutos rendeu uma puxada de orelha de um colega de trabalho. Nunca se calou e, dessa vez, não foi diferente: “Olha, você não é meu chefe, se você tiver alguma questão comigo, você fala com a minha chefe".
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E é assim que Claudina segue: uma rede de apoio presente, a terapia em dia e, no momento, em um ambiente familiar para seu DNA jornalístico. Não se limita no trabalho nem mesmo na vida. Claudina sempre soube que, de alguma forma, precisaria se posicionar firmemente quanto ao que acredita e o que almeja. Por enquanto, seu foco segue no modo multitarefas e se divide entre uma faixa e outra de música, encaixando roteiros de podcasts e consultorias. A exaustão existe, claro, mas ganha respiros em cada zona de conforto que apenas hoje aceita estar, sem se culpar por não ir atrás nem do hard news e, muito menos, de uma vida ainda mais exigente.
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O fazer jornalismo em tempos de ataque

A Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) publica, desde 2005, o Relatório de Violência Contra Jornalistas e Liberdade de Imprensa. O documento é elaborado a partir de dados coletados pela própria entidade e pelos Sindicatos de Jornalistas filiados à FENAJ. Essas informações têm origem em denúncias feitas pelas vítimas ou notícias publicadas em veículos de comunicação.
A jornalista Maria José Braga, secretária-geral do Sindicato dos Jornalistas de Goiás (SindJor-GO) e membro do Comitê Executivo da Federação Internacional dos Jornalistas (FIJ), destaca os números recordes de violência contra profissionais da área durante o governo do ex-Presidente da República, Jair Bolsonaro.
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“A gente tem números que fugiram totalmente da curva de violência contra jornalistas na série histórica dos relatórios que a FENAJ produz anualmente. Então, no primeiro ano do governo Bolsonaro, teve um incremento de 54% no número de casos de violência contra jornalistas e contra a imprensa em geral. No segundo ano do governo dele, já tinha tido 50%, aí teve um incremento de 104% no número de casos de violência. No terceiro ano, continua praticamente o mesmo número do segundo ano, ou seja, a violência não cresce mais, mas fica num patamar elevadíssimo. No último ano, cai um pouco, porque era um ano eleitoral e ele [Bolsonaro] foi orientado a se conter.”
Para a sindicalista, a crescente violência contra a categoria no mandato de Bolsonaro (2019-2022) não foi apenas coincidência. Maria José enxerga que a descredibilização do jornalismo foi uma política de governo.
“O governo Bolsonaro utilizou como tática agredir jornalistas e descredibilizar a imprensa. Como era um governo anti-Brasil e anti-povo, um governo que notadamente tomava medidas para privilegiados e ‘outros grupos’, precisava que a informação não chegasse para o povo, precisava criar os seus mecanismos de comunicação, quase sempre comunicação com informação mentirosa. Então, para que isso funcionasse, era preciso descredibilizar o jornalismo. Então, foi prática de governo, política de governo.”
No último relatório divulgado pela FENAJ, em 2024, a queda nos números de violência contra jornalistas continua. Apesar disso, os dados ainda são alarmantes, uma vez que agressores políticos, assédio judicial, ataques digitais e ataques de gênero persistem. Tal realidade também aparece em outras iniciativas que buscam registrar esses casos de violência contra jornalistas, como o Monitor de Assédio Judicial Contra Jornalistas e o projeto de monitoramento de Violência de Gênero contra jornalistas, ambas da Abraji.
Quando partimos para o recorte de gênero dentro do exercício jornalístico, Maria José é incisiva na diferença entre os ataques contra homens jornalistas e aqueles contra mulheres jornalistas. “O jornalista quando é agredido verbalmente é um ‘mau-caráter’, um ‘vendido’. Uma jornalista quando é agredida verbalmente é uma ‘vagabunda’. Tem um viés de desqualificação pessoal, e não profissional.”
Também questiono Maria José acerca dos números baixíssimos de denúncias formalizadas pelas trabalhadoras. Segundo a pesquisa do Perfil do Jornalista Brasileiro da UFSC, 93,2% das profissionais atuantes no Centro-Oeste não recorrem a meios formais para registrar casos de assédio, ameaça ou agressão.
“No Brasil, as vítimas se envergonham. Há um paradoxo, quem tem que se envergonhar é o agressor. A vítima não tem que se envergonhar. Então, nós precisamos trabalhar com todas as mulheres de que, quando você é vítima, você tem que buscar justiça. Isso é muito complexo, porque muitas vezes ao denunciar, ao não abaixar a cabeça, a mulher é revitimizada. Eu digo que sempre em casos de violência a gente tem que abolir o ‘mas’: ‘ah, ela foi agredida, mas ela falou isso’. Não interessa o que ela falou, ela foi agredida.”
Como representante sindical, Maria José reforça o apoio que essas profissionais podem encontrar no sindicato. Embora não tenha poder de fiscalização, o “sindicato tem poder de persuasão”, argumenta. Ela finaliza ressaltando a importância do engajamento da própria categoria na luta pelos direitos trabalhistas, a fim de construir uma realidade mais positiva para todos.
“O conselho é: sigamos, sigamos no jornalismo e vamos nos organizar cada vez mais para que a gente conquiste o que a gente acha fundamental para nós como profissionais e para a sociedade como um todo.”
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Conheça Eva: quantos abusos carrega o “ser mulher”?
A entrevistada optou por não se identificar, portanto o nome abaixo é fictício. O áudio da entrevista foi distorcido para também proteger a identidade da fonte.
Chego à casa de Eva logo após seu expediente como repórter em um jornal goiano de destaque. O local fica praticamente no lado oposto do trabalho dela. Ela me recebe com o cabelo preso em uma espécie de coque-rabo-de-cavalo e, transparecendo um pouco de ansiedade, me pede licença para alimentar o filho pequeno antes de iniciarmos.
Depois de dar dois iogurtes para a criança no sofá da sala-cozinha, coloca o filme Up Altas Aventuras na TV e se junta a mim ao lado da mesinha de canto, que serve como um repositório de brinquedos e papeladas da vida adulta. O esforço feito já é o suficiente para cansá-la em razão da gravidez bem avançada do segundo filho.
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Eva é uma mulher negra, casada há mais de 10 anos, frequenta a igreja desde muito nova e sempre conciliou o trabalho em redações com assessoria e voluntariados. Apesar da formação em jornalismo, Eva diz que iniciou no mercado ainda bastante inocente. Isso custou um preço, mas não esse financeiro que você pode ter pensado. Sua crença imensurável na bondade e honestidade das pessoas lhe manteve presa por quase dois anos em um ambiente corporativo tóxico e abusivo.
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“O chefe de lá me colocou para fazer coisas que acabaram com meu psicológico. Ele não gritava, não me tratava mal, mas ele me manipulava e eu não percebia”, assim inicia a história antes de me contar os absurdos que passou no local. Era 2019, tinha dois anos de formada, mas passava longe do piso salarial de jornalista em Goiás. Presa em uma jornada de 8 horas por dia para receber um salário de R$1.500 reais, também era refém dos jogos psicológicos que o chefe da época fazia para abalar a autoestima de Eva.
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A promessa de se tornar editora do veículo durou por quase dois anos, sem que Eva percebesse os malefícios que aquele emprego trazia. Os abusos não eram apenas com chantagens emocionais e cargas excessivas de demandas, também ocorriam nos desvios de função constantes. Em um determinado momento, Eva era cobrada para entregar pautas, contratar membros para equipe e, o que a levou ao limite, demitir uma colega de trabalho.
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“Aquilo mexeu tanto com o meu emocional que só de lembrar…”, dá uma pausa com a voz embargada e o olhar perdido. Eva me conta que a situação foi ainda mais delicada por essa colega da equipe estar dentro do Espectro do Transtorno Autista (TEA). Foi obrigada a comunicar a demissão ainda durante o expediente e os gritos de desespero da integrante eram audíveis por todos os presentes, inclusive o chefe, que assistia tudo de dentro da sua sala de vidro no meio do escritório.


— E aí, eu só peguei, a abracei e disse “me perdoa, mas não sou eu”. Ela levantou e deu um soco na parede, pegou a mochila dela e nem olhou para trás, sabe? A moça foi embora. Ele [o chefe] deveria ter uma pessoa de RH, um psicólogo, alguma coisa para poder fazer isso, né?

Deste dia em diante, Eva descobriu uma nova sensação: o pânico. A primeira crise ocorreu no meio do Terminal de Ônibus da Praça da Bíblia, na fila em que esperava o ônibus para casa. Sentiu a respiração ofegante, o peito acelerado, o ônibus parecia vir em sua direção, já não escutava ninguém em volta, a blusa ficara molhada de tanto suor e o ar já parecia nem chegar. Uma senhora que também aguardava o coletivo a ajudou abanando e dando um pouco de água. Foi depois desse dia que Eva percebeu que algo não estava certo.
— Eu estava tão mal que eu não queria vê-lo, porque, se eu visse, eu ia explodir. Então, eu mandei um áudio de seis minutos [pedindo demissão] e ele retornou com um áudio de 40 segundos falando: "Ok, tudo bem, eu entendo".
Neste período, já era pandemia. Mesmo com as limitações sociais, Eva conseguiu iniciar a terapia, processo que a libertou das correntes que carregava. Nele, juntou os cacos que o assédio no trabalho deixara e revisitou uma ferida de infância que emergiu fortemente depois de se ver vulnerável após a demissão: o abuso sexual praticado por um parente repetidas vezes que vitimou Eva e uma versão dela ainda mais ingênua.
Conforme frequentava as sessões, Eva aprendeu a como tratar os sintomas físicos que sentia de ansiedade e de pânico. Hoje, já recebeu alta, mas ainda tem sessões esporádicas, quando o exercício físico e as meditações guiadas não são suficientes. A vida seguiu e segue bem mais leve do que antes.
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Pouco tempo depois que iniciou a terapia, ingressou no atual emprego e, com apenas um mês de casa, descobriu que estava grávida do primeiro filho. O medo de reviver aquele mesmo cenário adoecedor tomou conta dos primeiros pensamentos de Eva, porém a equipe de agora demonstrou ser diferente e apoiou cada momento da gestação. Claro, houve quem julgasse, mas sem fazer barulho o suficiente.
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O dilema que Eva encara atualmente é outro. Em uma rotina marcada por plantões aos finais de semana, trabalhos extras por fora e pautas difíceis de digerir, a culpa lhe visita frequentemente. Será que sobra tempo para ser uma boa mãe mesmo com tantas responsabilidades em mente? E a atenção ao marido, é o suficiente ou o cansaço ganha?
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Eva aprende diariamente como equilibrar seus quatro mundos: mãe, jornalista, esposa e mulher. Nem sempre dá conta como gostaria e a consciência que ganha com o passar do tempo acaba a afastando da visão romantizada que tinha da profissão durante a faculdade. Embora mais realista e afetada pela realidade desafiadora de ser mulher, negra e jornalista no cenário político-social do Brasil e do mundo, do início ao fim do relato, Eva demonstrou a força que extrai de si mesma para se reapossar da própria trajetória que, por vezes, tentam diminuir ou apagar.
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Eva sofreu abusos na infância, foi manipulada enquanto recém-formada, demonstra uma autocobrança que qualquer mãe saberia descrever. Ainda assim, mantém-se firme e crente, não só ao seu Deus, mas com uma fé inabalável no poder que o jornalismo tem quando afastado das fissuras que o mercado causa. Eva espera agora uma filha, uma futura mulher que poderá se encher de orgulho pela mãe que exala coragem em nome da informação e da democracia.




Relatos como os de Mariah, Claudina e Eva humanizam os dados sobre o exercício jornalístico no Brasil. Essas histórias nos conectam a mulheres jornalistas que já trabalharam ou ainda trabalham em redações e que já se viram inseridas em rotinas adoecedoras física e mentalmente. Hoje, se seguem resistindo em meio à intensidade que carrega o ato de informar, comunicar, é porque, além da rede de apoio, encontram na terapia um local para enxergar seus limites e acolher cada sentimento que diariamente as atravessa.
Uma mulher que entende muito bem sobre isso é a jornalista e psicóloga Fabiane Fagundes. Antes de se tornar psicóloga, Fabiane atuou por mais de 20 anos no jornalismo – período em que trabalhou em rádio, televisão e, nos últimos anos, em assessoria. Mas, o que leva uma profissional com esse longo tempo de experiência a mudar de carreira? Fabiane não leva sequer um segundo para me responder: no caso dela, a exaustão pelo estresse que carregava dentro do trabalho ou, como ela mesma definiu, a ausência do brilho nos olhos.
Terapia como aliada: cuidar também é resistir



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Fabiane explica acerca do papel fundamental da terapia ao mesmo tempo em que narra sua própria jornada de cura. Hoje, um dos estudos que ela realiza é voltado a compreender como nós, mulheres, podemos quebrar a corrente que nos coloca em uma posição de não merecimento e baixa autoestima.
“Esse processo de construção de autoestima passa pela desconstrução do condicionamento que foi imposto à mulher por centenas de anos. A gente precisa desconstruir isso que o sistema [patriarcal] nos coloca, nos subjuga, que nos coloca dentro de um molde. A gente não tem rótulo, nós somos mulheres. Existe um ser independente do meu gênero, eu sou ser humano. A gente precisa resgatar, reconstruir isso o mais urgente possível para que a gente saia dessa condição de aceitar, de naturalizar o que não deveria ser naturalizado.”
Para Fabiane, a terapia entra nesse processo de resgatar a autoestima por meio do autoconhecimento. “O autoconhecimento e a terapia ajudam a gente a desmistificar muita coisa, a se empoderar de quem a gente realmente é e nos dá opção de escolha”, esclarece. A psicóloga ainda defende que as próprias empresas deveriam repensar as iniciativas de suporte psicológico que oferecem às colaboradoras, uma vez que, segundo a especialista, “quanto mais saúde mental a pessoa tem, mais produtiva ela fica.”
Mudanças na legislação… Mudanças no futuro?
Quando falamos de uma trabalhadora com a autoestima e o autoconhecimento desenvolvidos, estamos falando de uma pessoa que é mais exigente, que “não aceita qualquer coisa”, como Fabiane reforça ao citar uma das razões que afastam empresas de iniciativas direcionadas à saúde mental.
“A partir do momento que você ajuda, que você tem obrigação e responsabilidade pela saúde mental do colaborador, esse colaborador vai aumentar a régua dele e a empresa também vai ter que aumentar a régua dela.”
No entanto, a psicóloga aponta que existe um movimento de mudança nessa postura corporativa desde a mais recente atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), em agosto de 2024.
“A partir de 2026, as empresas brasileiras vão ter que responder também, assim como elas respondem pela saúde física, pela saúde mental e emocional dos colaboradores, apresentando a cada dois anos diagnósticos e também os programas contínuos. Então, as empresas começaram a se movimentar por força de lei, mas eu acho isso muito válido, porque com o tempo isso vai se tornar um hábito, um costume, uma cultura. Vai levar um tempo? Daqui 10 anos, 15 anos? Sim, mas a gente está em um processo de evolução.”
Como praticar o autocuidado?
De acordo com Fabiane, o primeiro passo é entender que estar adoecida mentalmente não torna ninguém menos digna e forte. É desafiador separar um tempo para olhar para si quando estamos cada vez mais inseridas em um mundo que nunca para: seja pelo excesso de informações, seja pelo uso ininterrupto de telas, seja pelas múltiplas jornadas que enfrentamos paralelamente no dia a dia.
“As pessoas não têm consciência que essa aversão pelo adoecimento mental está ligada a uma estrutura mental de uma época em que a religião rotulava essas pessoas como não dignas da benção de Deus.”
Embora seja difícil tornar essa pausa para praticar o autocuidado algo natural dentro de um cotidiano como o traçado no exercício jornalístico, Fabiane afirma que, para além da busca pela terapia, alguns exercícios podem partir da própria pessoa, como estabelecer um dia na semana para ficar completamente fora das telas ou ainda tentar fazer uma higiene do sono todos os dias antes de dormir.
No entanto, a psicóloga acredita que, mesmo existindo uma disciplina no nível individual, é indispensável continuar elaborando e aplicando políticas públicas e iniciativas empresariais que busquem fortalecer a saúde mental dessas pessoas. Isso porque, para ela, o adoecimento mental crescente “vai impactar no desenvolvimento social, na economia. Uma sociedade que está adoecida emocional e mentalmente é uma sociedade que não vai conseguir oferecer todo o potencial dela.”
E qual o termômetro para buscar ajuda?
“Eu sempre bato na tecla do autoconhecimento e da autoestima. É um movimento muito interno. Eu começo a perceber que muito do que eu tô buscando, toda essa correria, dar conta de tudo, é muito mais para atender uma necessidade do meu ego. Quando eu consigo dominar meu ego e colocá-lo do tamanho que ele tem que ser, que é muito menor do que a minha essência, muita coisa deixa de fazer sentido. Se não tem valor, eu não vou ficar mais naquela bola de neve e eu vou começar a tomar decisões dentro do que é realmente importante para mim.”
Para Fabiane, uma pergunta que todas as pessoas deviam ter como norteadora é “isso me edifica ou me paralisa, me destrói?”
“Muitas mulheres que estão nessa correria estão anestesiando essas dores que a gente traz da ancestralidade: de ser calada, de não ser vista, de não ser valorizada, de não ser validada. Aí a gente fica tentando se provar ‘eu posso, eu posso, eu posso’, só que a gente está adoecendo. Quando eu paro e olho para o meu contexto, eu começo a observar e a ter consciência. A partir do momento que eu tenho consciência, eu começo a identificar o que está em excesso.”
A psicóloga finaliza essa reflexão relembrando o brilho nos olhos que citou no início de sua fala. Assim como esse brilho a que ela se refere serviu de termômetro para entender o limite dela dentro do exercício jornalístico, é ele que também podemos usar como bússola para saber quando estamos desnutridos emocionalmente.



Escrever cura. Escrever abraça.
É com brilho nos olhos que encerro essa reportagem. Me nutro da esperança que ouvir cada uma dessas mulheres me trouxe. Assim como elas, jornalismo para mim é sobre dar voz por meio de histórias e espero que, para além da denúncia presente acerca da precarização e do machismo da área, cada trecho aqui publicado chegue como um abraço e uma mensagem de que não estamos sozinhas.
Não me senti sozinha em nenhum momento enquanto escrevia essa pauta que tanto me atinge. Aliás, nunca me senti sozinha desde o primeiro contato que tive com o jornalismo. Isso graças à primeira profissional que eu admirei e seguirei admirando a vida toda: Shirley Cruz ou, para mim, mãe.
Ela, que chegou na minha terra Tocantins e escreveu matérias que, hoje, contam a história dos primeiros anos de vida de Palmas – naquela época, recém-construída capital do estado mais novo do país.
Foram 30 anos e desses, acompanho 21. Cada plantão de final de semana, os choros, os medos, mas também a satisfação ao entregar uma matéria com relevância, a sensibilidade que tinha com cada fonte e, sem dúvidas, a rede de apoio que ela construiu com outras amigas de profissão.
Assim como ela, que chegou à aposentadoria neste ano com o mesmo brilho nos olhos que iniciou seu caminho como jornalista, eu decido iniciar a minha jornada na comunicação escrevendo sobre o que levarei como bússola sempre: meu bem-estar em qualquer área da vida.
Espero que as próximas Anas, Shirleys, Claudinas, Evas e Mariahs tenham aqui um termômetro para o exercício jornalístico. Informar e comunicar é lindo, mas fica melhor quando feito em um ambiente saudável.
Finalizo esse material com muito afeto e, por isso, não poderia encerrar de outra forma que não com palavras da minha mãe, mas que aqui é Shirley Cruz, minha principal inspiração para fazer jornalismo.
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Pauta Silenciada: o hoje e o ontem
por Shirley Cruz
“Pauta Silenciada: as entrelinhas do adoecimento mental de mulheres jornalistas”. O título conciso do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) que Ana Júlia da Cruz Costa ora apresenta me levou ao meu próprio passado. Sou uma mulher branca, 60 anos, provinda de família de poucos recursos, mas que desde a infância dizia que quando crescesse seria jornalista.
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Entrar para o curso de jornalismo da Universidade Federal de Goiás (UFG) em 1988 foi motivo de muitas comemorações. Fui e ainda continuo sendo a única de uma família de cinco irmãos a cursar uma faculdade. O início não foi fácil. Tive que superar os resquícios de um ensino básico precário e as limitações financeiras.
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O primeiro sinal veio de um professor: após ler alguns dos meus textos, questionou como eu havia chegado até à universidade, pois não sabia escrever, não dominava a Língua Portuguesa. Disse a ele que também não sabia, mas que queria aprender. Acredito que daquela crueldade não proposital do professor tenha nascido a profissional que viria a me tornar tempos depois, tendo investido, inclusive, em uma pós-graduação em Língua Portuguesa.
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Ainda na vida acadêmica, percebi a dureza do mercado de trabalho. Já no 2º ano, fui trabalhar na TV Brasil Central e não parei mais. Ao término do curso, bati na porta de uma TV em Barra do Garças (MT) e de lá acabei indo parar no Tocantins, onde estive por 31 anos e onde vivi e sobrevivi às agruras do sacerdócio da opção por ser Jornalista Profissional.
Fui uma das pioneiras do jornalismo no Tocantins e, na busca por um lugar ao sol, muitas e inúmeras vezes aviltei meu organismo com jornadas de trabalho insanas. Trabalhava de dia numa televisão e à noite em um jornal impresso. Quando surgiu a oportunidade de ir para uma assessoria, fui.
Ser mulher desbravadora numa terra de homens também desbravadores não é fácil. Mas, muito pior no Tocantins era ser mulher, sem padrinho político e ainda carimbada como sendo simpatizante de um dos grupos políticos. As injustiças ocorriam e a gente se calava. Ocorreu comigo. Aprovada em concurso público do Tocantins, e com nomeação publicada no Diário Oficial do Estado, fui impedida de tomar posse e sofri ameaça velada. Por medo, receio e uma enormidade de outras emoções, as quais até hoje ainda não consigo nominar, fiquei paralisada. Por anos me cobrei pela inércia que tomou conta de mim.
Mas, como diz o ditado, o que não me mata me fortalece. Fiquei ainda mais determinada. Nos anos seguintes, tive longa experiência no impresso (Jornal do Tocantins); depois estive como assessora da terceira maior cidade do estado naquela época (Gurupi); retornei ao impresso e de lá ao Governo do Estado do Tocantins, onde chefiei a comunicação das Secretarias da Administração, Saúde e Segurança Pública. Passei ainda pela Câmara Municipal de Palmas; por agência de publicidade; pela Prefeitura de Palmas; e na gerência de telejornalismo da retransmissora do SBT.
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Concomitante à trajetória profissional, fiz família no Tocantins. Casei, tive uma filha. Se na minha solteirice, sobrevivi a um jornalismo com redações machistas, conversas enviesadas, salários desiguais e desqualificação de um auxílio doença por conta de uma Lesão de Esforço Repetitivo (LER); ao constituir família, os dramas foram outros.
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Minha gravidez tardia, aos 38 anos, foi de alto risco e acabei tendo de entrar de licença aos cinco meses. A empresa não gostou muito. Por essa época, a ordem era reduzir pessoal. Só não fui mandada embora por causa da gestação. Meu retorno ao trabalho foi complicado. Deixar minha filha de quatro meses no berçário, e ainda com sérios problemas de saúde foi um dilema, mas não havia outra saída.
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Os problemas de saúde dela se agravaram. Internações, faltas para levá-la ao médico e um dia veio a maior surpresa: mandaram o boy da empresa levar um aviso prévio para que eu assinasse. Não assinei. Liguei na Delegacia Regional do Trabalho (DRT). Acabaram não me mandando embora. Descobriram que não podiam. Na ocasião, eu respondia como Secretária-Geral do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Tocantins (Sindjor-TO). Meses depois, já trabalhando em outro local e já desligada do Sindjor, me deram as contas.
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Para não delongar, volto agora ao título do TCC: Pauta Silenciada: as entrelinhas do adoecimento mental de mulheres jornalistas. O que minha filha Ana Júlia da Cruz Costa aborda neste trabalho retrata a realidade de jornalistas não só em Goiás, mas no país afora. Demonstra o quanto é necessário seguir o conselho dado pela secretária-geral do Sindjor-Goiás, Maria José Braga: “sigamos, sigamos no jornalismo e vamos nos organizar cada vez mais para que a gente conquiste o que a gente acha fundamental para nós como profissionais e para a sociedade como um todo.”
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Seguir em frente foi o que fiz por amor ao jornalismo; por saber que nosso trabalho, nem sempre reconhecido e nos últimos tempos bastante desqualificado, pode sim fazer a diferença na vida das pessoas, da comunidade, da cidade, do estado e do país. Foi essa crença que me conduziu na juventude e na maturidade a continuar. Agora, aos 60 anos e aposentada, continuo na ativa e sem prazo de validade determinado para parar.






Por entre as linhas





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